Axel Tuanzebe

Les Léopards Enfrentam a Inglaterra em Estreia Histórica nas Oitavas da Copa do Mundo

Les Léopards Enfrentam a Inglaterra em Estreia Histórica nas Oitavas da Copa do Mundo

A República Democrática do Congo escreve hoje um capítulo inédito em sua história no futebol mundial: pela primeira vez, Les Léopards disputam a fase eliminatória de uma Copa do Mundo, e o adversário não poderia ser mais simbólico - a Inglaterra, uma das seleções mais tradicionais do torneio. O encontro é ao mesmo tempo uma prova de fogo e uma declaração de chegada de uma nação que há muito luta por reconhecimento no cenário global do esporte. Para dentro e fora do vestiário congolês, o significado do jogo vai muito além dos noventa minutos.

Entre os jogadores que carregam esse peso com clareza de propósito está o zagueiro Axel Tuanzebe. Nascido em Bunia, no leste do Congo, Tuanzebe cresceu na Inglaterra após sua família se mudar para Rochdale quando ele ainda tinha quatro anos. Formado nas categorias de base do Manchester United, ele chegou a disputar a Premier League e a UEFA Champions League pelo clube, tendo também contribuído com as subidas de Aston Villa e Ipswich Town à elite do futebol inglês. Depois de representar a Inglaterra até o nível sub-21, Tuanzebe fez uma escolha deliberada: em 2024, estreou pela seleção congolesa. Num futebol europeu onde a governança financeira segue em debate - a própria UEFA multa a Roma em 6 milhões de euros por descumprimento de acordo financeiro, reforçando que as exigências institucionais não poupam ninguém - a trajetória de Tuanzebe representa um caminho inverso e voluntário: do centro para a periferia, com intenção declarada de elevar o que foi historicamente negligenciado.

"Por tempo demais, o futebol africano esteve nas sombras e foi ignorado", disse Tuanzebe. "Chegou a hora de iluminá-lo." A frase resume uma postura que vai além do discurso. Tuanzebe poderia ter seguido representando equipes europeias em competições continentais. Em vez disso, escolheu ser espelho e referência para uma geração de jogadores africanos que, segundo ele, muitas vezes hesitam em abraçar a herança do continente por não terem exemplos próximos que os guiem nessa direção.

A Jornada de Bunia a Old Trafford - e de Volta às Raízes

A história de Tuanzebe é, em muitos sentidos, uma história sobre sacrifício familiar. Seu pai o levava aos treinos em Rochdale com uma dedicação que foi consumindo carros pelos quilômetros acumulados. A mãe e o pai deixaram para trás tudo que conheciam no Congo para oferecer melhores oportunidades aos filhos. Tuanzebe não esconde a gratidão, e tampouco deixa que ela se dissolva em retórica vazia: ela aparece na decisão concreta de representar o país de origem.

"Meus modos e minha forma de viver ainda são congoleses. Minha cultura ainda é congolesa, e eu quero representar de onde eu vim", afirmou o zagueiro em entrevista concedida em novembro de 2025, parte da série By Way of Africa. A identidade, para Tuanzebe, não é algo que se abandona ao cruzar fronteiras ou ao conquistar espaço nas ligas mais competitivas do mundo. É algo que se afirma, especialmente quando há uma Copa do Mundo em jogo.

O Que Esta Partida Representa Para o Futebol Africano

A presença da RD Congo nas oitavas de final não é apenas um resultado esportivo - é um argumento concreto contra a ideia de que as seleções africanas pertencem, por vocação, apenas à fase de grupos. O continente tem fornecido talentos ao futebol mundial há décadas, mas raramente foi recompensado com o reconhecimento institucional e os recursos que essa contribuição merece. Tuanzebe aponta para um ciclo que pode ser quebrado: jogadores da diáspora que escolhem representar suas nações de origem trazem não apenas qualidade técnica, mas visibilidade, patrocínio e inspiração para jovens que nunca tiveram acesso a academias de formação bem equipadas.

A comparação com a experiência de John Obi Mikel - que manifestou frustração com jogadores que só se voltam para o futebol africano após esgotarem possibilidades europeias - mostra que o debate dentro do continente é complexo e honesto. Tuanzebe reconhece essa tensão, mas aposta que o resultado coletivo de ter mais jogadores de qualidade representando suas nações supera o desconforto com as motivações individuais. O que importa, na sua visão, é o impacto: melhores instalações, mais oportunidades, mais jovens africanos chegando ao alto nível.

Inglaterra x Congo: Um Duelo Simbólico no Palco Mais Alto

Do lado inglês, a seleção chega às oitavas com o peso de uma nação que ainda busca repetir o título de 1966. A Inglaterra é uma potência consolidada, com um elenco de alto nível e a experiência acumulada de sucessivas campanhas em grandes torneios. Para os Léopards, o desafio é imenso - mas a chegada até este ponto já é, por si só, uma vitória estrutural para o futebol congolês.

Tuanzebe estará em campo sabendo que cada dividida, cada intervenção defensiva e cada minuto jogado carrega um peso que vai além da tabela. Ele joga pelo país que o viu nascer, pelos pais que o trouxeram até aqui e por uma geração de meninos em Bunia, Kinshasa e em toda a diáspora congolesa que precisam ver alguém como eles neste palco. "Seja corajoso, saiba quem você é e vá atrás do que deseja", disse ele. Hoje, ele pratica o que prega.

Nota do editor: By Way of Africa é uma série dedicada a destacar talentos e histórias do continente africano e de sua diáspora. As histórias africanas merecem ser contadas, e a cultura - com todas as suas línguas, tribos e tradições - merece ser celebrada. Enraizado nessas narrativas está um testemunho profundo da dedicação, disciplina e ética de trabalho profundamente incorporadas à herança africana. Seja nascida no continente ou dispersa pelo mundo, a contribuição dessas histórias para a sociedade ressoa de forma única, por meio da África.